Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Monstro no Jardim

Julho 18, 2022

Carlos Palmito

mostro.jpg

 

Escolhe o ritmo, escolhe o ritmo e eu escolho a arma.
Escolhe o som, o baque, a queda, eu escolho a dor, a dor… o amor!
Escolhe a cor, o tom claro, o tom escuro, os espetros das tonalidades cromáticas.
Não importa, não interessa, eu levo o branco, o negro e os universos em colisão, os que se transmutam uns nos outros, não é assim que sou?
Não é isso que me torna em mim?
Um monstro perdido num jardim?
Éden talvez? Ou Minos.
Não interessa, deixa a parede incólume, um dia marro lá com os meus próprios cornos.
 
 
Imagem encontrada na NET

Chacinando flores

Abril 26, 2022

Carlos Palmito

5bda8cc054389fb1048524e4.w800.jpg

Arrancou a flor do chão, rasgando-a do ventre de Gaia, tentando apoderar-se-lhe da beleza e da fragrância. 

Sucumbiu, essa mesma flor, pouco depois, solitária numa prisão em formato de jarra, num mundo artificial cheio de arrogâncias e falsidades, longe dos prados que amava, e dos campos floridos da memória perene. 

Mais uma filha da mãe terra chacinada por vaidade e inveja, atirada para o esgoto quando dela já nada mais conseguiam extrair. 

Gaia gritou em agonia. 

— Como ousas tocar no meu jardim? 

 

******************

Originalmente o texto era só assim: 

Arrancou a flor do chão, rasgando-a do ventre de Gaia. 

Ela gritou em agonia. 

— Como ousas tocar no meu jardim? 

 

Foto encontrada na Net 

O Ultimo Beijo

Abril 19, 2022

Carlos Palmito

sunrise-through-the-window-zane-st-juste.jpg

Ponta da cama, cinco e meia da manhã.

A cidade está a acordar, o deus ofensor proveniente da escuridão dissipa-se pela alvura que teima em penetrar no teu casulo.

Bem perto, talvez do outro lado das muralhas ouves os primeiros carros, as vozes e passos, escutas a vida a desabrochar, enquanto contemplas o jogo de sombras no teto, espectros de uma vida que não mais usufruis, uma ilusão onde te sentes seguro.

Fechas os olhos e inspiras profundamente o ar húmido com os últimos vestígios da noite, desprovido de caricias, de ternuras, de amor. Ainda tens tempo.

Ontem foi um bom dia, sabes? Ontem será sempre um bom dia.

Existem searas nos infindos campos dos Deuses, trigais prontos a serem colhidos, chacinados por uma foice assassina… e existe ela.

Sentes o odor a perfume, flores de um jardim que não mais subsiste, uma memória residual, um hábito, era frequente este bálsamo, a constância da sua pele…

Tens uma musica em repetição na cabeça, dormiste com ela… mas sem ela… “ I looked into your eyes and, saw a world i wish i was in…”

Ontem foi um bom dia, sabes? Ontem será sempre um bom dia.

Levas a mão à bochecha, nela está o ultimo toque de uns lábios, a recordação impressa na pele do que foi o dantes, uma tatuagem na própria alma, que arde e te consome… o ultimo beijo é sempre o mais cruel.

Seis e meia da manhã, levantas-te, ontem foi um bom dia, desnudo caminhas em direção ao despertar, abres a torneira sentido a água irromper, gélida… lavas o rosto, lavas o beijo, o ultimo afeto, ontem será sempre um bom dia.

Contemplas os restos mortais de quem foste, nesse espelho falacioso que são os teus olhos, mas existirá sempre um amanhã.

Vestes o melhor dos teus fatos, passas os dedos na barba, abres a porta e sais… existe uma meta lá à frente, um trajeto a ser percorrido.

Na calçada, fechas os olhos por uma ultima vez, o beijo ainda lá está, na lembrança, despedes-te dele… desta feita, finalmente com sucesso!

 

Imagem encontrada na net

Mensagens

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D