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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Malícia Noturna

Setembro 21, 2023

Carlos Palmito

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Na penumbra da cidade adormecida, o amor floresceu entre sombras.

— Olá! — exclamou ele, enquanto lhe contemplava as pernas desnudas, cravadas por caninos de vampiros.

A rapariga de pele azulada saudou com um sorriso de desdém.

— Olá? — interrogou com malicia no olhar, verde, como as dunas da lixeira num caso de constipação crónica de um morcego alcoolizado.

Ele deu um bafo no cigarro, soltando uma baforada que tresandava a cães lavados com tintura de iodo e nêsperas podres.

— Sim, olá — retorquiu, elevando a cabeça em direção à galáxia meretriz que lhes enviara um cometa.

— Que sejamos simpáticos, ao menos na morte.

 

Pintura de George Grosz - Lower Manhattan (1934)

 

Câmaras de Tortura Estética

Agosto 30, 2023

Carlos Palmito

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Alinhados lado a lado, estavam os observadores, os espetadores, os voyeurs, as dores, os apontadores e os marcadores, que a marcaram como gado a abater.

Na outra ponta, existiam aquecedores digitais, batons, bastões, secadores de cabelo, bases de mil cores… exceto as do arco-íris.

— Temos que subir as sobrancelhas, colocar sardas nesta cara lisa. Não chores menina, que debotas o eyeliner — grunhiam os porcos enquanto a observavam, nua, na sua cadeira de eletrocussão.

A tesoura cortava-lhe os fios de vida, os cabelos aloirados, outrora desalinhados como a pradaria. Tentavam os carrascos descobrir a maneira correta de lhe expurgar a alma.

A cada tesourada, era-lhe roubado um pedaço de si mesma. A cada passar de dedos banhados em suor e uma multiplicidade de gorduras que nem o olfato conseguia identificar, era-lhe removido um excerto de si. E ela chorava, e gritava, e berrava, no silêncio e quietude de si mesma.

— Agora, os seios, esses têm que ser elevados, dar mais volume, mais firmeza, que de coisas moles está o mundo farto. Os mamilos estão a apontar para o lado errado, e que auréolas são estas? Que nojeira é esta? — resmungavam eles, os júris da beleza inalcançável. — E esta cintura? Alguém tem que trabalhar nas gordurinhas aqui, que menina que queira ser apresentável, não pode andar nestes tratos.

Na banca existiam bisturis, aspiradores, sangue seco das vítimas anteriores, viciantes aos olhos dos… marcadores.

Enquanto por detrás dos seus óculos de cientistas tresloucados, os seres da beleza etérea, analisavam-na. Um pedaço de barro a moldar, carne para trabalhar, peças de lego nas mãos de uma criança cruel.

— O nariz parece uma batata — sibilou uma barata — partam os ossos, e moldem conforme o livro dos padrões.

— Os ombros estão demasiado largos — resmungou alguém pardo. — Que faremos, que faremos?

— Tudo tem tratamento, incluindo a cicatriz ali, abaixo da pélvis — disse o comandante das aberrações.

Ela era um nada, ali no centro de uma sala de mármore, sentindo os odores de éter, de álcool, de loucura, e da sua própria urina.

Sabia ser o último dia que se veria como ela mesma, dali, seria encaminhada para a sala das crianças educadas, para ser reeducada.

Robôs, todos somos escravizados para nos transformarmos em robôs.

— Que se inicie a dança — ordenou o mestre de cerimónias.

As câmaras apontaram para o meio.

No topo, nas suas casas, a comerem cheetos, pizzas e pilas, viviam os que resmungavam, presos nas suas banhas, banhados nos seus padrões sobre os quais não se regiam, que nem padres numa igreja romana, e babavam-se a observar o espetáculo.

— Por mais nove euros, pode ver a transmissão na íntegra — rosnavam as colunas. — E por apenas sessenta e nove euros por mês, durante o espetacular prazo de dez anos, pode vir ao programa e, ser moldado para a beleza eterna.

 

Pintura de René Magritte - Youth (1924)

Tocaia Silenciosa

Agosto 25, 2023

Carlos Palmito

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Piratas, mercenários, ladrões, a escória da sociedade, toda enfiada num espaço continuadamente sodomizado, um bordel disfarçado de taberna, onde meretrizes roliças bamboleiam em cima das mesas.

Encontro-me sentado no canto mais afastado, com os olhos fixos na entrada, saboreando todo o fedor que emana dos corpos. Suor, sangue, sémen, selvagens que desconhecem um banho faz tempo.

Aguardo, tenho que esperar mesmo, bebo um trago do vinho azedo, amasso um pouco de tabaco para mascar, ocultando o meu rosto na escuridão, desviando as atenções da minha pessoa. Um invisível entre assassinos.

Estive três dias no observatório, no topo desta lixeira a que chamam cidade, à espera; e, mesmo com febre, vi-o, o número um da lista. Vi-o entrar com uma destas feminilidades imundas, mascarradas de tintas de mil cores, juntos, num beco, o alívio sexual da besta, das bestas. Depois, ele sempre veio para aqui.

Passaram-se cinco anos, dá para acreditar? Desculpa amor! Continuo lento… sinto uma lágrima, quente, a descer em espiral na direção do vazio. Cinco anos desde que a última flor na cidade de cristal sucumbiu nas cinzas do fogo. Eu amo-te.

E ei-lo, vejo-o entrar, a cicatriz a subir o rosto em direção à testa denuncia-o. O teu punhal foi certeiro, Leda. O cão danado sobreviveu, mas ficou maculado por ele.

Ergo-me do banco, coloco a mochila roxa no ombro, do interior da qual retiro um dos mil espinhos, enquanto o primeiro dos teus assassinos é submetido à revista dos porteiros.

Deslizo silenciosamente nas sombras, roço-lhe na mão com um espinho de rosa, que fica lá cravado. Branca como a tua alma. Cianeto… a vacina que a minha aquietação necessita.

A lua vai vaza, como o meu espírito, mas amor, prometo-te… Esta noite, brindarei a ti sobre o cadáver de um tirano. 

 

Imagem tirada da net

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