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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Chacinando flores

Abril 26, 2022

Carlos Palmito

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Arrancou a flor do chão, rasgando-a do ventre de Gaia, tentando apoderar-se-lhe da beleza e da fragrância. 

Sucumbiu, essa mesma flor, pouco depois, solitária numa prisão em formato de jarra, num mundo artificial cheio de arrogâncias e falsidades, longe dos prados que amava, e dos campos floridos da memória perene. 

Mais uma filha da mãe terra chacinada por vaidade e inveja, atirada para o esgoto quando dela já nada mais conseguiam extrair. 

Gaia gritou em agonia. 

— Como ousas tocar no meu jardim? 

 

******************

Originalmente o texto era só assim: 

Arrancou a flor do chão, rasgando-a do ventre de Gaia. 

Ela gritou em agonia. 

— Como ousas tocar no meu jardim? 

 

Foto encontrada na Net 

Uma vida alaranjada

Outubro 20, 2021

Carlos Palmito

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Com uma sensual brutalidade fui arrancada da árvore onde nasci e cresci, onde vi irmãos e amigos germinarem para caírem num mundo assimétrico, uns com gritos de êxtase, outros de terror.

Os pequenos olhos castanhos (sempre amei essa cor) fixavam-me com gula, quem sabe algo mais, quem sabe algo menos, e senti-me acariciada pelos dedos na perfeição do toque, na perfeição da temperatura.

A casca foi limpa, quase que lavada num impulso inexplicado (ninguém nunca come a casca) raspas de laranja ao bolo, raspas de mim numa comida qualquer em vossos sonhos.

E foi nesse momento que constatei, vi ainda o brilho no gume afiado, e nada senti, sei que fui penetrada na prata cintilante da noite… na laranja da minha casca, mas nada senti! (deveria ao menos ter sentido dor?)

O licor da minha vida jorrou para fora num intenso sabor de alma, a minha própria, deixando na atmosfera um aroma cítrico, sabia que gomo após gomo ia saciar a tua fome, a tua sede… a tua gula. E quem me saciaria a mim?

À primeira trinca… no primeiro dos meus gomos, gritei, e não de dor como julgara desde que a prata penetrou a minha alaranjada casca… mas sim de prazer!

Como pode algo que deveria causar dor me levar à loucura do desejo? Deixei-me simplesmente ir, gomo após gomo, desejando que nenhum deles fosse o ultimo, e pudesse imortalizar o momento…

 

Foto de Nadi Lindsay no Pexels

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