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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Pó de arroz

Novembro 26, 2021

Carlos Palmito

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Vadio!
Esse era o nome pelo qual mais o chamavam, um verdadeiro vagabundo, e odiava, no fundo da sua alma e na flor da sua derme abominava  essa denominação.
Todos o olhavam através dos seus olhos, um deslumbrante arco-íris ótico que o julgava, censurava e oprimia… que sabiam eles? Nada, apenas presumiam e falhavam, mas o gaudério permanecia na conspurcada perceção daqueles ignóbeis seres.
Como ele os execrava.
Nem um único lhe deu a mão quando todo o seu mundo desmoronou que nem cartas ao vento, para si sobraram unicamente memórias, dor e mágoa… terá que viver com essa recordação até ao final dos seus dias “tudo é mais belo com um pouco de pó de arroz!”.
Não passava um único dia sem na sua mente, aquele local entre os dois ouvidos, ter uma disputa… morrer ou viver… acabava ininterruptamente por escolher a vida, seria ela a sua penitência.
E agora encontra-se aqui, num barco prestes a chegar à costa, longe da lixeira que um dia chamou de casa, conseguiu deixar para trás todos os desprezíveis cidadãos de bem, seus carcereiros mentais, acusadores reles que jamais o deixavam esquecer…
Sentia-se importante, “vejam onde o indolente chegou.” enquanto se deleitava com o sol a aquecer-lhe a face imaculada de barbas, os salpicos a arrefecerem-lhe a pele morena, o aroma a sal deste mar e odor de medo dos homens…
Em minutos chegou à costa, pegou no estandarte, saltou com o bote ainda em movimento, correu pelas areias com fúria e ira na expressão e nos berros… viu os clarões, ouviu os estrondos… as suas vestes tingiram-se de vermelho e tombou nas húmidas areias de uma desconhecida praia, a disputa tinha chegado ao fim.
“Tudo é mais belo com um pouco de pó de arroz!”.

Foto de Marcelo Moreira no Pexels

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