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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

O quadro que engoliu o tempo

Setembro 18, 2023

Carlos Palmito

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A primeira vez que entrei no estúdio, não prestei muita atenção, nisso tenho que ser sincero. Contudo, na última, no dia antes do incêndio, existiu um quadro que me chamou a atenção. Havia qualquer coisa nele, um brilho peculiar, uma aura, não sei explicar, mas tinha mesmo qualquer coisa, tinha vida e tinha solidão.

— Desculpe? — o funcionário ignorou-me por completo. Tive que insistir.

— Desculpe, pode dizer-me quem é a pessoa ali? — apontei para uma velhota que me encarava, aprisionada numa tela.

O homem desviou o olhar para o quadro, sorriu, mostrando os dentes amarelados pelo tabaco e café de uma vida guiada por vícios.

— Essa é a dona Clotilde.

— E quem é ela ao certo?

— Uma pessoa que floresceu no campo, germinou como uma macieira, para, no final, regressar a Éden.

Olhei perplexo, não percebi patavina do que ele me disse.

— Quem?!

— Era avó. Sabe? Todos nós temos ou tivemos uma. Essa é uma delas. Pode ser a minha, pode ser a sua, e, quem sabe, pode até mesmo ser a avó dos seus netos.

As palavras dele, em formato de prosa poética, tocaram-me direto na alma, aquele local entre o coração e a derme.

— E as maçãs?

— Teologicamente, as maçãs são a origem do pecado. Não quero com isso afirmar que ela era uma pecadora, pois, como vê, — indicou-me uma parte da pintura para onde os meus olhos acastanhados se moveram — está ali um espaço branco, vazio.

— De facto — cocei as barbas, franzi o sobrolho. — Nem me tinha apercebido.

— Porquê o vazio? Algum sinal de santidade? — acredito que, apesar de não o ter notado, o que me captou a atenção no quadro, o que lhe brilhava, era aquele local, desprovido de tinta, imaculado.

— Falei em teologia, contudo, não significa necessariamente que a maçã em falta signifique pureza. Ela não era pecadora, no significando que essa palavra possa ter para qualquer um de nós — ele pausou o discurso e observou-me atentamente, com uma certa curiosidade por trás daqueles olhos verdes. — Quer ver uma coisa?

Acenei afirmativamente.

— Siga-me então.

O funcionário, Joel, pelo que se lia no crachá que lhe habitava o peito, conduziu-me através de um labirinto, desenhado a telas, a vidas, a planetas, até um local. Aí, existia um quadro, branco na globalidade, exceto por um pormenor.

— Vê? — indagou ele.

E eu vi, percebi um ponto ao longe, que crescia a cada piscar de olhos, que se aproximava de mim, que transpunha a tela e se imiscuía na realidade.

— A maçã! — balbuciei, sentindo-me a ser engolido pelos tons cromáticos dela, pelos cânticos que vieram diretos do início dos tempos, em direção à imortalidade.

Se tive noção do que aconteceu a seguir, não o consigo afirmar. Sei simplesmente que abri os olhos, estava no quarto. Cheirava a gatos e jasmim; tresandava a histórias por contar e a aguarelas.

Do teto pingavam cores, borrões e saudades a saberem a maçãs. Uma luz azul trespassava as persianas.

— Clotilde — murmurei, e adormeci embalado pelas sirenes dos bombeiros.

O estúdio incendiou-se. O funcionário morreu nessa noite, levando com ele as memórias de uma avó.

 

Nos seus cabelos dançavam histórias, contos de um tempo onde não existiam violinos, nem salões de chá. Clotilde atenta-se ao espelho, observando cada traço do seu rosto, todas as rugas que Cronos lhe concedera ao longo da vida, da viagem pela terra.

— Onde paras, amor? Quantos segundos se passaram desde que surgi?

E o espelho não responde, jamais respondia, nem tão pouco ecoava o que lhe agonizava a memória. Na sua rede neuronal existia um espaço em branco, vazio, lembrando a maçã de Éden, entregue a Eva, comida por Adão.

 

 

Pintura Aguarela por Julio Jorge

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