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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Gélida como a neve

Novembro 14, 2021

Carlos Palmito

Aguardava a sua vez, sentada calmamente no chão gelado.
Doía-lhe o rabo, os músculos na totalidade. Já tinham passado demasiadas horas.
Desviava os olhos constantemente da porta entreaberta, por onde fiapos de neve penetravam na loja, para as duas crianças que como ela estavam sentados no chão, de olhos inchados e as caras imundas de fuligem, para um homem que gemia de dor, agarrado ao braço esquerdo… camisa entreaberta revelando um torso tonificado que ensopada em sangue gotejava num ritmar constante para o mármore do chão… gelado, e novamente para a porta.
Do outro lado da frincha ainda se ouviam berros, gritos, desespero, tudo acompanhado pelos aromas de carne, madeira, plástico e metal queimados, derretidos.
Foi tudo rápido, incisivo, preciso… horas antes os telefones ficaram mudos, a T.V. sem sinal e a internet desvaneceu-se no mundo dos zeros e uns. O rádio apenas emitia estática… a comunicação com o resto do mundo desapareceu. Depois foi o incendio nas docas, os barcos afundaram nas águas glaciais deste inverno bárbaro, e finalmente o estrondo, a ponte desapareceu… aliás, as três pontes de acesso à ilha deixaram de existir, sem comunicação com o exterior estavam impossibilitados de pedir socorro… No final era o pânico, pessoas que corriam em desespero a tentar salvar o ganha pão… os barcos, a pesca, sem se aperceberem dos vultos branco e negro, neve e rocha que se moviam furtivamente em direção à cidade, que a cada pequeno clarão emitido deles tombava um homem, uma mulher, uma criança, tanto fazia… era impiedosa a rocha e frígida a neve.
A Câmara Municipal foi tomada num rompante, enquanto a cidade ardia a partir das docas. A tonalidade laranja tomou conta da imensidão negra desta noite de nevasca.
Seguidamente caiu a esquadra, os poucos policias que ali estavam foram chacinados, sem dó nem piedade, nem o baixar de armas os salvou, tal era o desejo de sangue.
Esta era uma noite de dádivas aos deuses, mas que deuses exigiriam uma chacina nestas proporções.
E agora, ela aguardava a sua vez, calmamente sentada no chão gelado, enquanto que um homem de branco e negro levou o policia que se esvaía em sangue para o escritório da loja, ouviu-se um estrondo e um baque seco, sem gritos, sem dores… ela sabia o que significava.
Levantou-se calmamente do chão gelado, apoiou-se na canadiana e caminhou em direção à porta, acompanhada pelos olhos esmeralda do ser de neve e pedra.
— Onde pensas que vais?
Não respondeu, nem olhou para trás, nem sequer esmoreceu o passo, sabia o que ia acontecer, se morresse, ao menos que fosse nas suas regras. Em setenta anos de vida, jamais deixou um homem dar-lhe ordens, e não era agora que ia acontecer.
Um estrondo ecoou na loja, inundando-a de um aroma acre, ela tombou de joelhos a centímetros da frincha da porta e sorriu, enquanto o mármore era pintado de um escarlate fumegante.
“Artur, vou a caminho.”

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