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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Adeus, novo amigo de longa data

Novembro 01, 2021

Carlos Palmito

   

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Ao chegar perto da esplanada fui invadido por aromas extremamente diversos, de entre eles o que mais se destacava era o das torradas acabadas de confecionar.
   Olhei à volta atentamente, e vi-o na mesa ao fundo, a mais isolada de todas, lá estava Júlio, a observar tudo e todos enquanto que ao mesmo tempo me acenava para me juntar a ele.
   Dirigi-me para lá passando de relance os olhos pelo relógio. Quinze e vinte. Tínhamos combinado encontrarmo-nos apenas às quinze e trinta, contudo já ele ali estava, sentado, bebendo água e com um cigarro em repouso no cinzeiro.
   Sentei-me, sorri num cumprimento:
   — Olá Júlio, faz tempo que não nos sentávamos assim, não?
   Ele pousou em mim o seu gélido olhar azul-céu, sempre me arrepiou aquele olhar:
   — De facto, nem me recordo se alguma vez tomámos um café juntos, mas acedi ao teu pedido, Carlos. Acho que precisamos mesmo falar.
   Passou uma empregada à qual pedi dois cafés, após anotar, ela partiu para a obscuridade do bar em busca do requerido, deixando a pairar, perdido no espaço e no tempo a memória da sua silhueta e um odor silvestre, presumo que tenha sido a sua escolha de fragrância artificial nesta manhã, embora agora a artificialidade estivesse conspurcada com suor, tabaco e álcool.
   Voltei a atenção para o meu recente amigo de longa data, notei, sem conseguir evitar um sorriso, que o foco dele estava disperso na esplanada, nas gentes e objetos à volta, e ao mesmo tempo em mim, Júlio tinha essa capacidade, assimilar tudo, guardar tudo…
   — Sabes ao que venho? A razão do telefonema?
   — Claro que sei, Carlos. “Retorquiu ele em tom suave.” — Queres saber mais de mim, não é?
   Tentei responder, mas fui silenciado pelo seu gesto a pedir calma, e por um sorriso nos finos lábios deste adolescente na minha frente, que nunca sorria… é assustador um sorriso bocal quando os olhos permanecem frios!
   — Mas a pessoa ideal para te falar de mim reside nessa coisinha que tens entre as duas orelhas, afinal, é lá que eu habito, não é? Repara, ainda
umas linhas atrás disseste eu ter uns olhos azuis, e bem mais perto deste uma vaga noção da minha idade, dos meus lábios…
   Eu estava atónito, sabia que Júlio era atento, metódico, calculista, mas nunca imaginei que ele falasse assim tão abertamente, junto com o sorriso, esta era uma novidade para mim.
   O perfume silvestre regressou, a ser libertado da esbelta silhueta que nos trazia dois cafés, na outra ponta da esplanada estava um cão que corria em devaneio com duas crianças entre as mesas, no céu as nuvens continuavam calmas, movendo-se preguiçosamente… e das árvores perto vinha o som de pássaros.
   — E agora queres saber um episódio de mim, certo? Já tens desenhado nestas parcas linhas uma característica, um aspeto de personalidade, falta-te a vivência.
   Nem tentei falar, acenei simplesmente que sim, para não lhe interromper o discurso. Estava fascinado com a tranquilidade do meu recente amigo de longa data.
   — Dou-te duas, não uma, mas duas, pelo preço de uma, que dizes?
   Piadas? Outra novidade, desde quando Júlio fazia piadas? Fiz um ligeiro gesto com a mão a pedir-lhe para continuar.
   — Episódio numero um, numa tarde solarenga, eu e uns amigos decidimos ir mandar uns mergulhos no Oceano, nus… sempre adorei nadar desnudo, liberto de tudo o que me prende ao artificio, ali é simplesmente natureza. Deixámos a roupa no areal e lá fomos, gritámos, rimos, mergulhámos, era a felicidade estampada em cada um de nós. E quando estávamos já estafados regressámos para constatar que alguém nos tinha roubado a roupa. Após o choque inicial, desatámos a rir que nem uns perdidos, gargalhadas capazes de provocar avalanches nas terras de neve. Regressámos assim para casa, nus, com todo o mundo a olhar e apontar, mas cada um de nós sem sequer querer saber disso, não ligávamos. Estávamos felizes.
   Ele parou momentaneamente, e sei que era verdade o que dizia, pois os seus olhos neste momento sorriam. Vi-o pegar no cigarro apagado, brincar com ele entre os dedos, e o olhar voltar a ficar frio, sempre foi estranho saber a velocidade com que os sentimentos mudavam nele.
   — Episódio numero dois, uma doença afetou a aldeia, bem, o que parecia ser uma aldeia. Essa doença primeiro matou os anciãos, as manchas vermelhas espalhadas no corpo, a febre… e a morte. Depois começou a matar os mais novos, até que finalmente nem as crianças poupou… exceto eu, fui poupado… Dádiva ou maldição? Ainda hoje não sei, sei que nesse dia, no dia que o ultimo herói tombou, acendi uma fogueira, e nela depositei os corpos todos… Crianças, velhos, irmãos, amigos e desconhecidos, todos numa fogueira… foi a única forma que pensei de controlar a doença… tapei o nariz e boca com um lenço, aquele negro que me costuma acompanhar, e sentei-me, tentando ignorar o cheiro a carne queimada, e o som do crepitar. Nesse dia apesar de não ter morrido, morri.
   Era realmente sério, sabia ser quando vi uma cristalina lágrima percorrer o seu rosto moreno e cair em esquecimento no colo… Júlio nunca chorava na presença de alguém, e, contudo, aqui estava ele a expelir sal da sua alma.
   — Adeus mestre das marionetas, este nosso café terminou, e eu vou indo… sei que tens muito que refletir, mas um dia vais ter que cortar os meus fios, e deixar-me fluir como uma marioneta com alma.
   Chamei a empregada, desviando momentaneamente a atenção de Júlio, queria pagar para ir. Quando olhei para a minha frente, vi que ele se tinha desvanecido, e na minha frente tinha apenas um café ainda por beber, um livro em branco… e um cigarro a repousar no cinzeiro.

   Adeus, novo amigo de longa data. Até já.

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