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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

O dilema

Dezembro 09, 2022

Carlos Palmito

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Claustrofobia, talvez no fundo seja isso, um homem prisioneiro de si próprio, com uma aversão à sua prisão, ao espaço fechado de si para si.

No exterior tombam partículas ínfimas de água, mal chega para calar a sede das terras desidratadas pelo sol no Alentejo, sem alento nem desalento, simplesmente desistiram de beber… tal como o homem desistiu de si, sentindo-se cada vez mais apertado no seu casulo claustrofóbico.

É a combinação perfeita para o desastre, um pouco de farinha, uma pitada de falta de confiança, três palavras mágicas… e plim, temos o homem fraturado.

Simplifica, rapaz, simplifica, tens o equipamento, apenas esqueceste-te como o usar.

Tens o sorriso, mesmo que desvanecido, tens as palavras e o som, tens sonhos, mas não sabes simplificar… será isso o que te conseguiram roubar? O conhecimento de quem és? A confiança sobre o que és?

Talvez não, possivelmente vives no receio, e… o receio de quê?

O medo de perderes o que ainda te sobra? E desde quando vives de restos?

Se avançares, poderás perder uma amizade, se ficares, poderás perder um amor, ambos residem numa linha futura, e tens medo da bifurcação? Medo da escolha? Medo do homem do futuro? Afinal… quem temes tu?

Posto isto, estas palavas, as escolhas na balança das tempestades, os sentimentos a rodopiarem ao vento como num tango entre dois amantes, diz-me, qual te pesa mais no coração? O beijo perdido, ou o roubado?

E então, pequeno rapaz-homem, conseguirás simplificar? Ser menos analista? Menos indeciso? Conseguirás reencontrar-te, menino perdido? Conseguirás superar o teu próprio desafio?

 

Criei novamente para os desafios da abelha que se desvia da chuva, em 52 semanas de 2022 | tema 48

Tive inspiração em pensamentos meus, em duvidas minhas, tenho a certeza que por vezes lêm o que escrevo, e pensam que sou só palavras atiradas nas folhas.

Acreditem, não o sou, deposito sentimento em cada letra.

 

P.S. Imagem encontrada na net

Pluralidades

Dezembro 01, 2022

Carlos Palmito

mirrormaze.jpg 

Plural, todos somos plural, eu tu, ele, ela, nós, vós,

eles, elas, as cores, os sons, os cheiros… e a voz,

a voz que não se cala, a cadência ritmada das amarras sem nós.

Somos genes e genealogia, netos, filhos, pais, folhas ao vento e avós.  

 

Vivemos na pluralidade dos eventos, somos inapetência e desejo,

Ação e consequência, carne, alma, olhares perdidos, e um beijo.

Somos abraços sentidos, verdades, mentiras, o universo que vejo e revejo,

Somos um arroto preso na cordialidade do esófago, uma esfinge e um percevejo

 

Somos países, distritos, concelhos, cidades, vilas, aldeias,

Somos o especular do que não se deveria especular, somos vidas alheias,

Meias sem par, oceanos sem baleias, castelos desprovidos de ameias,

Somos os vendavais e as tempestades colhidas do que tu semeias.

 

Em nós existem eras, não as heras venenosas, mas as envenenadas,

Somos a erva no campo, no prado, no mar e nas paredes abandonadas,

Um rio sem destino, um peixe afogado, uma carícia recebida e outra dada,

Somos vivências diferenciadas nas suas pluralidades, para nós ou é o tudo, ou o nada.

 

E agora, neste molho, junto ao rio onde lavo as lágrimas extintas,

Nesta tela branca onde tento depositar todas as dores, cores e tintas,

Onde berro em letras tendenciosas as minhas demências famintas,

Onde sou o plural do eu mais eu, ou o eu mais tu em palavras distintas,

 

Sei que tenho que dar a mim mesmo o conselho, o qual falei ao longo do poema, que é aceitação, todos somos pluralidade, inclusive na singularidade, aceita todas as vozes que te habitam, todas as demências e sanidades, sê o plural do eu mais eu, mas se possível, o eu mais tu.

Todos somos eventos a pairar ao vento na esperança de sermos encontrados.

 

Poema criado para os desafios da abelha (Ana de Deus), 52 semanas de 2022 | tema 48 

P.S. Imagem encontrada na net

Senhor do Tempo

Novembro 23, 2022

Carlos Palmito

copos_mesa_chao_parede3.jpg 

Hora, minuto, segundo, o limiar da loucura contado pelos ponteiros de um relógio de sol, os de uma ampulheta, ou até mesmo aquele que não está no meu pulso…

Pulsam as veias, corre o sangue na autoestrada corporal, estou cansado… sinto-me esgotado, mas não paro, não posso, deposito letras até à exaustão, plagio-me a mim próprio numa tentativa inútil de recriar momentos, sou o fumo que sai pela chaminé e se desvanece no horizonte, ontem era o fogo, hoje sou a cinza.

A meu lado está um cinzeiro cheio de sonhos e fantasias, algumas beatas de um vicio por matar, possivelmente um suicídio lento num ato inconsciente, involuntário, talvez seja apenas a repetição que mantém o cigarro aceso, quem sabe.

Abro mais uma garrafa de vinho (repetição), ao longe ouvem-se trovões, aqui perto tombam árvores, ali ao lado está um gato, lá mais atrás um fantasma, a cama encontra-se abandonada, desisti dela, vivo agora num sofá vazio.

Encho o copo de cristal com as lágrimas de Baco, dou um trago, o sabor é um misto de deceção e desilusão, frustração e desapontamento, com um leve aroma a segredos por desvendar.

Cravo os caninos no espírito do que fui, sou um vampiro que se alimenta de si mesmo, sendo que desta forma me consigo visualizar do outro lado do espelho, a realidade é cruel e a ficção inalcançável.

Fecho os olhos, é estranho como tenho essa tendência, cerrar as janelas da alma, inspirar o ar azedo da civilização, e deixar-me afogar na pré-demência neuronal.

Em mim existem um, dois, dez, mil, inúmeras personalidades, e, contudo, nunca me sinto completo, vejo o que não existe, existo no que não vejo, sou um pesadelo em locomoção, a colheita de um campo de ventos, a tempestade enraizada na árvore da vida.

Pelo canto do olho observo o ecrã da televisão, nela passam imagens da minha existência, um filme noir em repetição perpétua seguindo minuciosamente um guião inacabado.

Meu Deus!

Sou uma personagem de Hollywood.

 

 

Narração criada para os desafios da abelha, 52 semanas de 2022 | tema 47 (o que vai no meu pensamento)

 

Espero que gostem, se quiserem, deixem o vosso comentário.

 P.S. Imagem desenhada por mim. 

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