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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Meditação

Abril 07, 2022

Carlos Palmito

treeoflife.jpg

Piquenique, a tolha está colocada sobre a relva, sim, nas ervas algures no campo, pois nem tudo terá que ter areia, água salgada, ondas e abismos (o abismo sou eu).

Coloco lado a lado a uva colhida e a uva esmagada, fruta e vinho. Alimento para o corpo, bebida para o espirito.

A ti brindo, Baco, neste dia, uma nova alvorada.

Dou um gole deste cálice adornado a lágrimas, sinto o frutificado sangue de uma qualquer divindade que prefere os homens alcoólatras ao invés de hidratados, envolver as minhas papilas gustativas, aquecer-me o esófago e descer.

A temperatura está amena, deixo os raios solares acariciarem a minha pele, afagar-me os pelos, aquecerem o meu eu externo, para que este se sintonize com o interno, sinto o vento roçar a minha existência, dá-me conforto, dá-me alento, por um momento sussurra-me o lamento de um Rei, ou será de um fauno?

Cheira a flores silvestres, pinheiros, amoras, ao lago (afinal apesar de não salgada, teria que existir água), existe o aroma das ervas, do musgo, até mesmo dos patos que não vejo e dos coelhos que correm em liberdade.

Ouço as aves nos céus a grasnarem, talvez, quiçá, os patos do lago. Neste mesmo lago escuto os peixes a saltar, se me atentar, poderei até ouvi-los a nadar. Os coelhos correm entre os arbustos, consigo ouvi-los, os ouvidos captam também o som de uma corça e o seu progenitor.

 Fecho os olhos, calço os patins dos sentidos, estou em sintonia, harmonia, sou eu e tu, mãe terra… somos nós unidos, aqui, neste piquenique, somos energia, fusão de seres, de almas…

Para que estou a viver? Estou a viver para sentir, os cinco sentidos mais o espirito, estou a viver para me deslumbrar e ser deslumbrado, estou a viver para mim e para ti, por e para todos… somos união, somos energia… vivo para vós, povo da terra, desde o átomo até à majestosa grandeza do universo.

Vivo para ser uma partícula de pó na ampulheta universal que uma criança balança.

 

 

Texto criado para os Desafios da Abelha | Dia 96 de 365 , lançado por Ana de Deus 

 

Imagem encontrada na net

Espectro

Março 09, 2022

Carlos Palmito

wolf-man-hannes-sefyrin.jpg

Território selvagem, sete e meia da manhã.

O sol despertou há pouco, e com ele acordo eu.

Os pássaros chilreiam nas árvores, o orvalho brilha nas pétalas coloridas das flores intemporais, percorrendo todo o espetro cromático do arco-íris; cores multiplicadas pelo infinito, absorvidas pelo olhar; pigmentações que me fazem esquecer o monocromático noturno, mas jamais a centelha nos teus olhos, a chama que te alumia a alma.  

Esta noite dormi sobre relva, tendo como lençol o próprio universo, deixei-me seduzir por deusas há muito extintas, forniquei na entrada do paraíso e caí no inferno.

Inspiro os frescos odores matutinos, uma golfada impregnada das milhentas fragrâncias neste jardim, desde rosas a orquídeas, passando pela transpiração da minha pele, a resina dos pinheiros, e os resquícios do ato carnal com divindades findadas.

Toda a imensidão deste plano astral está embebido em magia, consigo quase sentir-lhe o paladar, algodão doce, pétalas de rosas, casca de limão… tanto faz, é uma multiplicidade tão desmedida que sinto o corpo entrar em torpor.

Levanto-me e começo a caminhar neste Éden que se apresenta no vislumbre da minha vivência, acelero o passo até correr, até ser ultrapassado pelo meu espirito, o lobo em mim, corro livre, mergulho no lago gelado que me acorda, sei que Érebo virá de novo, até lá sou o lobo diurno que se lava na cascata de um cosmo infindável…

Nu observo o meu rosto no espelho de água, onde contemplo um homem que se perdeu no mapa do mundo.

 

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O dia amanheceu sorrindo

Março 06, 2022

Carlos Palmito

day arising.jpg

O dia amanheceu sorrindo. 
Calçou as meias de ilusão, caminhou só, caminhou sem pressa… 
era preciso. 
A noite breve chega… 
E com isso o dia rápido parte, leva com ele a candura dos toques raiados do sol, leva as cores e explosões visuais de um mundo onde tudo é natural. 
A noite breve chega, a pigmentação artificial dos néones numa cidade esquecida, traz com ela a lua dos poetas e memórias de uma praia nos confins do universo.  
Traz o quente da tua pele transpirada encostada na minha. 
Não é o que dizem? 
A noite pertence aos amantes? 
O dia rápido parte, e eu não quero que parta, quero ficar preso ali, como se fosse uma foto, um retrato retratando a imortalidade. 
Amo o natural e a forma como os olhos brilham no sol, sob o sol… amo o quente dos seus raios, e amo o quente dos teus raios, amo as cores e os ventos, tempestades de alma, na alma, no eu que nem sei quem sou… 
Mas o dia vai morrer, a noite vai germinar dessa morte… 
Alimentar os poetas… 
Odeio os poetas, 
Odeio-me a mim! 
Amo o dia. 

 

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