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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

A Dança da Terra e do Vento

Dezembro 11, 2023

Carlos Palmito

dandaelion.jpg

Nas terras conquistadas pelo Homem existe uma cidade, existe uma lixeira e rostos agraciados pela depressão. Existe álcool e violência, crianças esfarrapadas e mulheres esfaimadas, existe decadência e figuras holográficas de um mundo que foi esquecido.

Nas terras conquistadas pelo Homem, as tonalidades cromáticas do arco-íris são o cinza contrastando com o cinzento. Os jardins, são jazigos de mármore que sugam toda a luz.

Das chaminés na zona industrial é expelido um fumo denso que desenha esqueletos no céu negro.

Os carros berram na autoestrada da destruição, e, toda a gente odeia todo o mundo, um mundo onde ninguém sabe quem é quem.  

 

Ouve a terra que grita por sangue.

Ouve a terra que grita por sangue.

Sangue, na terra... de Deus.

 

Vê os pássaros que murmuram,

vê os pássaros que murmuram,

pintados de negro, de preto…

Palavras canónicas perdidas

no sorriso da mortalidade.

 

Sente o germe que te infesta.

Sente o germe que te infesta.

Sê o germe que germina,

sê a doença, a flor, a festa,

sê a folha da árvore que morreu…

 

e sente o vento.

 

Nas terras abandonadas pelo Homem existe uma planície, existem flores silvestres, abelhas a zumbir no infinito, existem árvores que apodrecem dando lugar a outras, existem montanhas e um lago.

Existe o coaxar de sapos que não se transformam em príncipes, existem dragões, existe um fado, dois arco-íris e a retina queimada de um Deus que morreu.

Nas terras abandonadas pelo Homem, o ar está empestado dos aromas de bagas e frutas, de pinheiros e sobreiros.

Cheira às chuvas tropicais, a barro e musgo, cheira a histórias por contar e mistérios a desvendar. Nas terras abandonadas pelo Homem existem nevascas e neblinas, existe o oceano a abarrotar de peixes. Existem sereias nas profundezas das cavernas mentais, e precipícios onde a árvore primordial esbanja a sua seiva.

 

Ouve a terra que sussurra de alívio

Ouve a terra que sussurra de alívio.

Alívio, na terra… sem Deus.

 

Vê os pássaros que bradam,

Vê os pássaros que bradam,

Palavras atípicas encontradas

nas alegres lágrimas da perpetuidade,

nas cores das safiras e diamantes…

 

Sente a semente que te aconchega,

Sente a semente que te aconchega.

Sê a semente, o barco, a vida,

Sê a imortalidade envolta num suspiro.

Sê a água agitada de um rio…

 

E sente o vento.

 

Cheira a liberdade.

 

Imagem encongtrada no FreePik

Sinfonia da Memória e do Esquecimento

Dezembro 02, 2023

Carlos Palmito

cidade-coberta-de-neve-extrema.jpg 

Suspiro, suspiras, ouvimos a chuva,

o baque de mil demónios e uma flor.

Suspiro, inspiro, redemoinho na dor.

O teu vinho vem do sangue de uma uva.

Sabias?

 

A noite foi de trovões, como antes,

como sempre, como eternamente.

Estou frágil, amanhã estarei doente,

talvez uma larva no rio dos elefantes.

 

Na minha recordação vem o teu rosto,

O olhar prásino perdido no completo vazio.

No alpendre o pardal mudo recupera o pio,

e na pia batismal, o demónio foi deposto.

Todos nascemos sem consciência do bem e do mal, sabias?

 

Cheira a terra molhada, a campo e a tosse escarrada,

Cheira ao barro que moldou o destino de uma estrela anã

Cheira ao doce ontem com o sabor amargo do amanhã,

Cheira a saudade na ausência da memória que me foi imposta.

 

E estás tu, sempre lá, bela tu, amada tu, um chá de ervas

na penúria da noite, uma luz negra na penumbra do eu,

sempre lá, perdida no vazio, sem veres que eu sou teu.

Sim amor. Sim memória. Sim dor. Eu sou teu, sem reservas.

 

A memória, o que raios é a memória?

A memória é uma mentira, é uma menina num baile de finalistas,

Uma aguardente quente na frente de um alcoólico.

A memória é uma cruel invenção que me pune todas as noites.

 

Imagem encontrada no Freepik

Amar Até à Última Estrela

Novembro 29, 2023

Carlos Palmito

vista-do-barco-na-agua-com-mau-tempo.jpg 

Num reino de emoções etéreas, onde o amor dança na fronteira entre sonho e realidade, vejo fogos fátuos, fatalidades e afeições que não se consomem. Vejo o teu beijo aproximar-se, com a fúria de um vendaval… sou uma pena que se atira no poço em busca de desejos, e o meu desejo é o teu respirar ofegante junto à minha derme, num bosque vespertino, onde as sombras escorrem o pesar agonizante das almas que queriam mais, que queriam tudo, penadas, penosas… Se as amo? Amo… te.

Contas-me sonhos e histórias, cantas-me baladas de hienas e tufões. Sou o teu ouvinte, o teu acelerar do ritmo cardíaco, sou o que vês quando estás perdida na chuva, e tu… és o meu tudo, o perfume que só eu sinto, o arco-íris nas tonalidades da explosão de mil galáxias, a derradeira razão do reencarnar. Pudesse, e na próxima vida seria a lamparina que ilumina as tuas letras, que te alumia a escuridão. Pudesse, e na próxima vida seria o teu livro.

Oferto-te vidas, a minha, as minhas, pois em mim vivem muitos, vivem biliões, biliões de balões a flutuar no interior de uma caverna. Vem, amor, vem até mim, hoje, ontem, sempre, vem até ao sonho, que esse será eternamente nosso.

O teu sorriso assombra as minhas fronteiras, devasta as terras áridas do deserto nuclear em que me escondi, qual escaravelho acobardado, em busca de cores. As árvores germinam indiscriminadamente, as fontes alimentam as heras e musgos. As silvas e espinhos rasgam-me a voz, ferem-me a visão, mas insisto, persisto, continuo, nu, a correr desenfreado em direção à voz que me guia.

Toco-te mais profundo que num ato carnal, mais dentro, mais selvagem, mais gelado que um glaciar, e sopro. Sopro, qual ciclone, sobre a chama da vela da paixão ardente. Vejo-te metamorfosear num tango sublime, acima das estrelas cintilantes dos teus olhos.

E tudo está bem.

Sentemo-nos então amor, nos prados azuis do oceano que será o nosso castelo, nos espinhos dos arbustos frutívoros.

Come uma amora, amor… sente-lhe o sabor açucarado mesclado com o meu sangue.

No palácio do rei dos bruxos ergueram uma bandeira negra, nela estava escrita a profecia.

Celebremos, amor. Fecha os olhos, sente o aroma dos anos a correrem no jardim de Éden, sente o amor que te declamo na voz de um mudo.

No céu, uma estrela cadente chacinou uma civilização.

Poderíamos ter sido nós… mas não fomos. Nós somos os imortais no sopro de um amor platónico.

 

Imagem do Freepik

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