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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Os menstruados

Março 02, 2023

Carlos Palmito

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Sentados em sofás de musgo humedecido por sémen, por alcatrão,

ensanguentados pelas entranhas rebentadas das mães,

enlameados nas vísceras anómalas da cristalina podridão,

que alimentam as esfaimadas matilhas, de vermes, de cães.

 

Com as palavras estranguladas por cordões umbilicais,

os sorrisos rasgados da existência ventosa do corpo.

A mulher está morta, a saudade está morta, o homem está morto,

o ventre estraçalhado, pelos orgasmos fingidos nos temporais.

 

De olhos obstruídos por persianas criadas por aranhas,

hálitos mentolados no timbre da heresia patriarcal,

braços esfrangalhados e em avançada morte cerebral,

amamentados pelas gorduras das suas próprias banhas,

 

cercados por faces cinzentas desprovidas de corpos,

com bocas desguarnecidas de línguas, de ofensas,

neurónios repuxados para trás pelos pentes das crenças

um cigarro a brilhar na infâmia dos seus dentes afiados, tortos.

 

Ah, mas os olhos… os olhos berram, e berram e gritam, e berram:

 

— Os gordos, os feios, os femininos de pénis encolhidos,

as masculinas de cabelos sebosos e clitóris arreganhados,

os hipopótamos, as porcas, os desmantelados, desmazelados,

os inadaptados, os inacabados.

 

Os menstruados!

 

A lâmina percorre o interior da coxa,

Tocando o pénis, a vagina, o sexo, deixando um risco.

A marca de mais uma ofensa pintada a visco,

a sangue. O ódio emerge, a mão afrouxa.  

 

A menstruação percorre o interior das pernas,

e pinga a solidão empoeirada da ejaculação precoce.

O fígado está destruído pelo álcool, pela cirrose,

Os pulmões pelo tabaco, pela tosse,

E recolhem-se para o habitáculo das suas cavernas.

 

Ah, mas os olhos… os olhos berram, e berram e gritam, e berram:

 

— Os gordos, os feios, os femininos de pénis encolhidos,

as masculinas de cabelos sebosos e clitóris arreganhados,

os hipopótamos, as porcas, os desmantelados, desmazelados,

os inadaptados, os inacabados.

 

Os menstruados!

Pluralidades

Dezembro 01, 2022

Carlos Palmito

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Plural, todos somos plural, eu tu, ele, ela, nós, vós,

eles, elas, as cores, os sons, os cheiros… e a voz,

a voz que não se cala, a cadência ritmada das amarras sem nós.

Somos genes e genealogia, netos, filhos, pais, folhas ao vento e avós.  

 

Vivemos na pluralidade dos eventos, somos inapetência e desejo,

Ação e consequência, carne, alma, olhares perdidos, e um beijo.

Somos abraços sentidos, verdades, mentiras, o universo que vejo e revejo,

Somos um arroto preso na cordialidade do esófago, uma esfinge e um percevejo

 

Somos países, distritos, concelhos, cidades, vilas, aldeias,

Somos o especular do que não se deveria especular, somos vidas alheias,

Meias sem par, oceanos sem baleias, castelos desprovidos de ameias,

Somos os vendavais e as tempestades colhidas do que tu semeias.

 

Em nós existem eras, não as heras venenosas, mas as envenenadas,

Somos a erva no campo, no prado, no mar e nas paredes abandonadas,

Um rio sem destino, um peixe afogado, uma carícia recebida e outra dada,

Somos vivências diferenciadas nas suas pluralidades, para nós ou é o tudo, ou o nada.

 

E agora, neste molho, junto ao rio onde lavo as lágrimas extintas,

Nesta tela branca onde tento depositar todas as dores, cores e tintas,

Onde berro em letras tendenciosas as minhas demências famintas,

Onde sou o plural do eu mais eu, ou o eu mais tu em palavras distintas,

 

Sei que tenho que dar a mim mesmo o conselho, o qual falei ao longo do poema, que é aceitação, todos somos pluralidade, inclusive na singularidade, aceita todas as vozes que te habitam, todas as demências e sanidades, sê o plural do eu mais eu, mas se possível, o eu mais tu.

Todos somos eventos a pairar ao vento na esperança de sermos encontrados.

 

Poema criado para os desafios da abelha (Ana de Deus), 52 semanas de 2022 | tema 48 

P.S. Imagem encontrada na net

Obrigado...

Abril 08, 2022

Carlos Palmito

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A noite está a chegar ao término, eu sei.
Aqui entre vós, amigos, senti-me um rei.
Trouxe por palavras declamadas… poesia!
Letras que apelam a sentimentos como tristeza e alegria.

 

As luzes vão-se desligar,
tenho consciência que um a um se irão levantar,
talvez aplaudir, sorrir e sair.
Uma vez mais fico sozinho, apenas para refletir.

 

Foi bom, sinto que o foi, poderia ter sido melhor? Talvez.
Mesmo não vos vendo as expressões, os olhares,
mesmo sabendo que sou apenas um entre milhares,
tive a ilusão da plateia, nem que apenas por uma vez.

 

E foi bom, senti-me vivo.
Obrigado… meu amigo…
Amigos.

 

Até já!

 

Foto de Jc Siller no Pexels

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