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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Os monstros não choram

Setembro 07, 2023

Carlos Palmito

rainny afternoon.jpg 

Entre as lágrimas da chuva, vejo reflexos do meu próprio ser.

Vejo as gotas de sal cristalinas que derramei num dia de trovoada, entre as trovas dos trovões e os batimentos cardíacos acelerados de um espírito quebrado, que poderiam encher oceanos nas crateras de Júpiter.

Entre elas, existem risos e rios, subsiste alegria e vida, que tresanda a medos profundos.

Contemplo reflexos espalhados ao vento, na obscuridade da noite, alumiados pelas estrelas inexistentes. Vejo o nascer dos mamutes e das galáxias, e corpos a apodrecerem nos seus infernos pessoais, incapazes de se desagrilhoarem das paredes do destino.

Vejo-me, pedaço por pedaço, rachado, estilhaçado, sem futuro, perfumado pelos prados floridos de um passado. Observo-me, como se cada vestígio da minha alma fosse uma migalha de pão esquecida numa floresta que desabrochou em contos antigos.

E nessas lágrimas cresce a árvore de um pomar envelhecido, a pingar sonhos, a verter pesadelos, a pintar um quadro surrealista, onde as minhocas caçam pássaros, e os gatos voam nas memórias das gotas de um olhar.

Entre as lágrimas da chuva, vejo reflexos do meu ser, vejo rios a transbordar, fogos a florescer, centelhas a extinguirem-se, e o brilho do olhar a desvanecer-se. Vejo a mutação ao longo dos anos, a criação vinda das cinzas de um espelho espatifado.

Aproveito a chuva, aproveito os espelhos de mim mesmo, os espelhos que espelham quem fui, e distorcem quem sou, e caminho, solitário, na minha jornada, tudo o que inicia tende a findar, e tudo o que finda, tende a reiniciar.

Entre as lágrimas da chuva, vejo memórias profundas, para me recordarem eternamente, na minha breve imortalidade, o que eu sou, quem eu sou, como eu sou.

Os monstros não choram.

 

Pintura de Leonid Afremov - Rainy Afternoon

A Face Oculta da Humanidade

Setembro 06, 2023

Carlos Palmito

fuselitiresias.jpg 

Bem-vindos ao mundo da ilusão, onde tudo é exatamente o que parece,

Bem-vindas as crianças que acreditam ser simples soldadinhos de chumbo.

São derretidas e convertidas em balas, sobre as quais sucumbe o mundo.

De que serve o vosso Deus? O adeus? De que serve a messe? A prece?

 

Qual o preço a pagar para conseguirmos viver neste planalto a que chamam planeta?

Um circo, uma feira a cheirar a nenúfares e sonhos liquefeitos. Uma verdadeira aberração.

De que serve matar os inimigos da pátria, se a própria pátria se odeia enquanto nação?

Quanto mais sangue será derramado? Qual o momento em que só verão uma silhueta?

 

Uma silhueta que há muito deixou de ser um humano. É somente carne para canhão,

um alvo a abater, uma semente da erva daninha, um pecador, filho de outro Deus.

Inimigo da pátria, do Rei, do estado, num estado caótico e platónico a tresandar a ateus.

Bem-vindos. Bem-vindos. Camaradas de oração, cruzados sem causa, irmã, irmão.

 

Bem-vindos, generais barrigudos, adornados com estrelas de constelações decadentes,

E não nos esqueçamos dos padres apregoando falsas doutrinas, desprovidos de fé.

Bem-vindas, criancinhas, que servem de petisco na subserviência da ponta do pé.

Bem-vinda, minha gente, ergam-se do esgoto onde hibernam em temporadas quentes,

 

e morram! Derretam nos confins do inferno, atolados num provocador inverno nuclear.

Adeus generais, adeus padres, adeus pátrias, adeus párias, adeus aves migratórias.

Adeus canibais vegetarianos, adeus mundos e fundos perdidos em realidades ilusórias.

Os palhaços do teatro da dor fizeram a vénia final, e saíram embriagados, a cambalear.

 

A lágrima, criada sobre penas e pedras preciosas, brotou-lhe dos olhos, do coração, da alma, da tinta da caneta, da pena, e da pena com que alimentava o sofrimento.

A resistência era tudo o que lhe restava, um pingo de humanidade debaixo daquele véu de pedra.

 

 

Pintura de Henry Fuseli - Tiresias Appears to Ulysses During the Sacrifice (1780-85)

Versos de um pacto

Setembro 05, 2023

Carlos Palmito

bocklinmountainwaterfall1849.jpg 

Olá meu amor. Ontem choveu um pó fininho que me tirou o olfato. 

Tentei encontrar vislumbres da tua silhueta por entre a condensada névoa pictórica

da minha cabeça... Mas não estavas lá! Existia somente um perfume e uma solidão metafórica,

lembrando-me de uma tragédia em três atos, a partir da qual se formou um pacto.

 

Esse pacto era sobre lobos e estrelas, anjos e fadas, camomilas e um rio

que serpenteia nas colinas de Vénus, para desaguar nos meus olhos castanhos.

Sempre foi água, e sal, e riscos prateados a dançar em musicais estranhos.

Sempre foi o leito, o lençol aquoso, o teto lunar, sempre foi superar o desafio,  

 

Superar o destino, extrapolar os deuses, suplantar as constelações.

Sempre foi… amor… foram sombras refrescantes no verão,

foram chuvas de outono e flores primaveris a ornamentar a tua mão.

Foi inverno, primavera, verão, outono… descomplicadas estações.

 

Sempre foi…

um pacto encenado entre três atos.

 

Ontem adormeci, embalado pelos trovões. Tive paralisia do sono, uma vez mais.

Descobri estar aprisionado numa repetição infinda, sem prosas adornadas,

nem rios, nem guizos, em que todas as ações eram interrompidas e reiniciadas.

Sem puder fugir, sem poder gritar, nem chorar, nem gemer, sem adagas nem punhais.  

 

Hoje, tenho gotas de sangue a pingar sobre o livro das memórias,

borrando as letras traçadas a carvão, maculando o pacto, sem calma,

como um punhal enraivecido que se afunda na carne até trespassar a alma.

Hoje, tenho um cálice embelezado com sonhos, desprovido de glórias e vitórias.

 

E num prado, existiu um anfiteatro, existiram dois seres, existia um rio, existia pó de anjos mesclado com fadas… existia um chamamento, existiam figurantes… e no final, subsistiu apenas o pacto.

 

Pintura de Arnold Böcklin - Mountain Landscape with Waterfall (1849)

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