Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

metamorfose tingida por borboletas

Setembro 25, 2023

Carlos Palmito

380223097_788203372995208_6058786136841790525_n.pn 

As palavras transformam-se em borboletas, dançando no jardim da mente.

Libertando laivos de luz a refulgir na incomensurável escuridão. Abandonam o casulo para se tingirem nos ritualistas compassos cromáticos de um arco-íris multifacetado, com giz e carvão, sangue e suor, sentidos e sentimentos, barcos de papel salpicados com aguarelas extasiadas a navegar nos esgotos lacrimosos da criação humana.

— De onde vens? Para onde vais? O que é o amor? O amor incondicional, aquele que te dá a vontade de acordar, de vaguear numa floresta de morcegos, sendo tu um canário, uma arara, o ar que as heras venenosas inspiram, e as eras envenenadas expiram? — indaga-me a rainha das traças, cinza, perecida na sua obscuridade, filha agreste do abismo, neta arisca da tempestade.

Ignoro-a, a traça metafórica da minha conceção, conheço-a desde que germinei neste viridário. É a minha irmã gémea a sussurrar do outro lado do abismo.

Eu sou o selvagem, o indominado, sou o vento e a chuva, o granizo e o fulgor no teu olhar. Sou aquele de quem falam para aterrorizar crianças, ou o que referem na lua dos apaixonados. Sou palavras, palavras livres, soltas como as páginas de um livro rasurado por angústia.

— Não interessa de onde venho, e tão pouco para onde vou. Sempre foi o caminho, a viagem, sempre foram os passos… O amor incondicional, ou o ódio abstrato.

As borboletas metamorfoseiam-se em palavras, gritos de revolta na manifestação artística, asseverações de liberdade nas prisões impostas pela caixa em que habitas, a sociedade em que vives, o mundo que te quer obediente.

Os berros são a arma, são a (r)evolução, são a alma do guerreiro que suporta o peso do mundo e o traduz num manual de procedimentos, numa panóplia de emoções, num riso amargurado, ou numa amargura desmistificada na mais cristalina das exultações.

 

Foto encontrada na NET

No limite da sanidade

Setembro 22, 2023

Carlos Palmito

serie_13487_201ad3c64bea6be0e6e6a90a5181134f.jpeg 

No coração da tempestade, encontramos a coragem que há muito perdemos.

Guilherme encontrava-se nesse momento deitado sobre um manto de musgos, que ocultava pedras afiadas e escarpas que se desenhavam no abismo e terminavam no infinito. O olhar azulado contrastava com a penumbra do céu. Na sua cabeça dançava a voz do velho desdentado, filho do lixo, neto da saliva, ancestral nascido de um útero apodrecido, numa repetição claustrofóbica: “No coração da tempestade…”

— Ah velho. Desdentado, louco, arruinado — murmurava Gui. — Tenho a certeza que nunca encontraste o teu temporal.

O homem, nos seus quarenta anos de existência, ergue-se. Todo o ser que tomba terá que se levantar, algures no tempo… no temporal, na chuva que não vem, e em histórias canónicas de deuses e mortais.

Na perplexidade das gotas que teimam em putrificar a sua alma, ainda sente o cheiro, o perfume que tresandava a freiras asfixiadas no sémen de um monstro que se julgara humano.

— Eu tentei, Inês, juro que tentei — cerra os punhos, os quais soltam uma faísca esverdeada, que o presenteia com o aroma de memórias reprimidas. — as faíscas tornam-se num fogo fátuo, que brilha na penumbra da noite e revivem fantasmas ocultos na sua perceção anestesiada pelo vinho flácido, derramado pelo falo dos gnomos de um jardim adocicado com ossos de cães e unicórnios.

— Eu tentei! — berra ao céu, negro como a alma danada de um deus esquecido. Explode dele, com ignição nos punhos, uma centelha de energia, que incendeia o bosque. A história tem uma tendência suicida para se repetir, tal como o homem tem uma tendência masoquista para rebentar com as rochas lambidas por mortos.

— Não, Guilherme, não tentaste! — respondeu o vazio numa voz esganiçada e atormentada, que lembrava a de Inês, a freira que fora violentada por um demónio, a que tentara expurgar o servo do submundo da existência mundana. — Rebentaste numa força cósmica, tal como agora. Rebentaste e mataste todos os órfãos, toda a igreja, o bairro, a cidade. Ainda lhes sentes o odor? Carne queimada? Lágrimas evaporadas? Sentes? — e era raiva, raiva de uma serva de deus, que lhe rasgava os locais mais recônditos da alma.

— Mas — tenta o ser de mia idade justificar-se.

— Não existe mas — grita o zero, a penumbra da noite iluminada por uma floresta em chamas, em ebulição, que nem a sopa dos pobres. — Nada justifica o que fizeste. Perdeste o controlo. E não foi a única vez, pois não? Lembras-te da putéfia na tua cama, naquela cidade longínqua, habitada por elfos e sereias? Virou cinza nas tuas mãos — e ri-se, a merda do vazio consegue rir, Inês ri-se… — Fogo sagrado, dizia o padre… pobre ignorante, que derreteu junto com a estátua de Cristo.

Uma estrela cadente, ou uma águia incendiada, risca as nuvens de fumo, para morrer no oceano viscoso dos pântanos submergidos pelos que dominam o planeta, os reis do inferno. Guilherme semicerra os olhos… o azul da íris tenta percecionar, ver onde ele estará… o seu predador, sua presa.

Encontra-o, escondido entre uma amoreira e uma corça decapitada, com um sorriso mordaz entre as mandibulas, e um ódio descomunal ao homem que se tenta erguer.

Aponta-lhe um dedo, do qual é projetado um raio mesclado nos cromados do escarlate e o esverdeado, escaldante, com a capacidade de derreter diamantes.

 — Hoje é o teu fim, minha besta — berra. Inês está muda, a freira que virou demónio, ou o demónio que virou freira. Nas narrativas, muitas vezes nem se percebe onde se misturam os elementos, e quem é o quê. As narrativas adaptam-se consoante as sociedades, e nesta sociedade, a narrativa era apenas uma. — Hoje liberto-me. Sem medos. Sem tristezas, sem culpas, sem passados, sem nós.

Aquando da colisão da energia cósmica com o demónio que fora alguma coisa, que controlara Guilherme, que o afundara nos bares da floresta, nas lixeiras das cidades, e nas camas de Sodoma, o planeta suspendeu. Tudo parou, por um minuto… O minuto da libertação das amarras, o minuto da coragem.

Assim, enfrentam homens os Deuses… enfrentam demónios, e vencem… assim, morre o cobarde, morre a dúvida, falece a tristeza.

— Eu juro que tentei, Inês.

 

Pintura de M K Anisko - Burning Forest (2010)

 

Malícia Noturna

Setembro 21, 2023

Carlos Palmito

george-grosz-lower-manhattan-c-1934-web.jpg

Na penumbra da cidade adormecida, o amor floresceu entre sombras.

— Olá! — exclamou ele, enquanto lhe contemplava as pernas desnudas, cravadas por caninos de vampiros.

A rapariga de pele azulada saudou com um sorriso de desdém.

— Olá? — interrogou com malicia no olhar, verde, como as dunas da lixeira num caso de constipação crónica de um morcego alcoolizado.

Ele deu um bafo no cigarro, soltando uma baforada que tresandava a cães lavados com tintura de iodo e nêsperas podres.

— Sim, olá — retorquiu, elevando a cabeça em direção à galáxia meretriz que lhes enviara um cometa.

— Que sejamos simpáticos, ao menos na morte.

 

Pintura de George Grosz - Lower Manhattan (1934)

 

Mensagens

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D