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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Caramelo, melão e algodão-doce

Novembro 30, 2021

Carlos Palmito

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Guia este meu olfato em teus odores, leva-me para além dos prazeres afrodisíacos do próprio corpo, distante de falsas moralidades e teatralizados pudores.
Torna-te o bote salva-vidas num universo nauseabundo onde tudo é desprovido dos cândidos aromas percecionados somente pelo epitélio olfatório.
Dança comigo doce estrela do obscurecer, sigo os teus passos embalado em sonhos e perdições, com uma rosa segura na boca e os espinhos cravados nos lábios… filamentos vermelhos que me percorrem a mandibula, um gotejar de sangue e alma… e as almas que dançam, se entrechocam e unem numa só, observadas e testemunhadas pelas estrelas deste desvairo.
Inebria a minha mente, deixa a loucura apoderar-se do que somos, pois a seriedade não pertence ao hoje, deixa-a vir amanhã, vir (se) depois… hoje seremos meramente lobos que uivam ao luar!
Unidos veremos o cosmos se alinhavar até ao mais infinitesimal detalhe, aplaudiremos e tombaremos nas areias do tempo…
No final aproximamos os corpos que rebolam neste plano existencial, onde as almas se uniram… e num abraço consegues sentir a minha respiração quente e vagarosa junto ao pescoço, enquanto eu sinto o calafrio que te percorre a derme, os poros se arrepiarem, os olhos ignorarem a realidade e o corpo contorcer-se… e noto os aromas que de ti emanam, caramelo, melão, algodão-doce!
Cravo-te os dentes, qual vampiro insaciável!
Paixão, desejo e luxuria!
Tudo num único instante, numa demência fugaz!

Foto de Marília Moura no Instagram

Palácio da divindade e do escultor!

Novembro 29, 2021

Carlos Palmito

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Aguaceiro ou soalheiro,
podem até vir nevascas e tormentas.
Porque me atormentas?
Lança-me um tornado que eu retorno,
livre do corpo corpóreo,
cultivado pelos divinos agricultores,
sem mágoas nem dores.

Serei a barba da criação,
a chuva em teus olhos, cristalina,
prosa e poesia sem rima…
livre da alma, desprendido do coração

E no final tornar-me-ei pedra
desnuda sem amarras nem pudor,
que apenas no teu cinzel quebra.
Serás assim, nesse momento, nessa hora
a minha esculpidora…
Neste palácio da divindade e do escultor!



Foto de Ekaterina no Pexels

A que cheiram flores mortas?

Novembro 28, 2021

Carlos Palmito

pexels-andre-moura-3227621.jpg

21 Horas, Daniela acordou subitamente do sono pesado em que se encontrava, algo a fez acordar, levantou-se meio cambaleante devido ao despertar inesperado, e foi até à janela do quarto, nada conseguiu ver. Lembrou-se repentinamente, a janela da sala, a única que dava para a torre, saiu do quarto, desta feita já em passo firme, o sono tinha terminado, sentiu o coração a palpitar rapidamente, descompassadamente, colocou-se de pé no sofá que dá para a torre, olhou e viu, não pela primeira vez, mas sempre a fascinou, todos os seres estavam nas suas portas, todos excepto um, faltava o único que ela conseguia reconhecer fácil, a visão era imaculada, mágica, como a torre mais alta de um conto de fadas, os seres (as gárgulas), o céu estrelado, hoje viam-se perfeitamente as estrelas no firmamento, era noite de lua nova, o que dava ao momento uma magia ainda maior. O último dos seres finalmente chegou, sentou-se na sua porta habitual, e como habitualmente com as pernas ao longo da parede, apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça sobre as mãos, desta vez não fixou o olhar sobre a população, nenhum deles o fez… ao invés, olharam todos em conjunto para os céus, como se fossem um apenas, e começaram de muito baixinho uma entoação de sons, num timbre agudo, que foi amplificando o seu volume ao longo dos minutos, o céu, até ao momento estrelado, começou a encher-se de densas nuvens, e suavemente principiou a gotejar, aumentando a sua intensidade em harmonia com o som proveniente da garganta dos seres, as ruas até ao momento secas, começaram a encher-se, no inicio, de pequenas poças de água, que com a intensidade da chuva se foram transformaram em pequenos rios que serpenteavam pelas pedras da calçada, que foram aumentando a sua dimensão, o seu caudal, as margens curtas que existiam foram-se afastando cada vez mais uma da outra, até que começaram a atingir os passeios, criando pequenos redemoinhos em volta das sarjetas, que tentavam a todo o custo dar vazão aquela enchente… Tudo isto decorria, enquanto no topo da torre os seres continuavam o seu grito, cântico ou fosse lá o que fosse!

Subitamente chegou a Daniela um cheiro que ela descrevia como “Primavera”, pensou que fosse imaginação, olhou para as ruas atenta, em busca da sua Primavera, mas ela não se encontrava lá, olhou para a torre, também não era lá que se encontrava, contudo, o seu olfacto captava o odor cada vez com mais intensidade, “… de facto a Primavera está perto, muito perto” e voltou a desviar o olhar para os rios da sua cidade, viu-se obrigada a pestanejar, não podia ser, a visão tinha que a estar a enganar. Mas era real, bem real, os rios estavam a arrastar no seu caudal milhares de pétalas das mais diversas flores, ali estava o esplendor da sua primavera, Daniela abriu a boca fascinada perante tanta beleza, “…Porque voam os anjos e nós temos que caminhar?” as pétalas continuaram o seu percurso arrastadas pelo caudal, entupindo sarjetas e inundando as ruas, a seu lado começaram a navegar também flores, botões das mesmas “ afinal os jardins também podem andar”, as margens, que até ao momento apenas tocavam os passeios, afastaram-se mais ainda, começando a então a tocar nas casas, estabelecendo os seus limites nelas, oferecendo-lhes flores “ A que cheiram flores mortas?”

21h28m, o timbre dos seres começou a baixar, e com ele a intensidade da chuva, até que ambas cessaram por completo, o único vestígio que existia era o rio e as flores e… um barco de papel, Daniela não conseguia tirar os olhos dele, era o seu barco dos piratas que navegava pelo rio das flores mortas “… cheiram a chuva!”

Um sono repentino atingiu-a, deitou-se no sofá e adormeceu de imediato.

 

FOLHA EM BRANCO

FOLHA EM NEGRO

“Ao próximo sinal sonoro serão precisamente 13 horas…”

“A noite de ontem foi de tempestade, várias aldeias do interior encontram-se ainda neste momento isolada…”

“Finalmente foi assinado o acordo transatlântico entre…”

Foto de Andre Moura no Pexels

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