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Gritos mudos no silêncio das palavras!

Aqui toda a palavra grita em silêncio, sozinha na imensidão de todas as outras deixa-se ir... Adjetiva-me então

Chorei mas comi

Outubro 20, 2021

Carlos Palmito

Passou tão pouco tempo, ainda hoje te dei flores uma vez mais.
É agora uma constante em mim… florear-te.
Espero que tenhas gostado, espero que tenhas sentido o seu doce perfume, eu senti, sentei e chorei.

Foi há vinte míseros dias fechaste os olhos de um azul cinza tão singular, para teimares em mais não os abrires.

Bebi um café na nossa pastelaria, aquela que me habituaste desde criança, onde eu te sorria, pai, e nada queria a não ser estar a teu lado como uma menina bem comportada.

Sabes, hoje é o meu aniversário de novo, e celebro. Tenho um pastel de nata e uma vela, um único numero, o primeiro de todos…. Um… O primeiro ano da minha vida sem ti.
Desliguei as luzes, risquei o fósforo na lixa negra e acendi o “UM”, deixei a quente, mas salgada lágrima percorrer o meu rosto gelado, e soprei, chorei mas comi o pastel.

 Bem vinda ao meu primeiro ano!

Uma vida alaranjada

Outubro 20, 2021

Carlos Palmito

pexels-nadi-lindsay-3384585.jpg

 

Com uma sensual brutalidade fui arrancada da árvore onde nasci e cresci, onde vi irmãos e amigos germinarem para caírem num mundo assimétrico, uns com gritos de êxtase, outros de terror.

Os pequenos olhos castanhos (sempre amei essa cor) fixavam-me com gula, quem sabe algo mais, quem sabe algo menos, e senti-me acariciada pelos dedos na perfeição do toque, na perfeição da temperatura.

A casca foi limpa, quase que lavada num impulso inexplicado (ninguém nunca come a casca) raspas de laranja ao bolo, raspas de mim numa comida qualquer em vossos sonhos.

E foi nesse momento que constatei, vi ainda o brilho no gume afiado, e nada senti, sei que fui penetrada na prata cintilante da noite… na laranja da minha casca, mas nada senti! (deveria ao menos ter sentido dor?)

O licor da minha vida jorrou para fora num intenso sabor de alma, a minha própria, deixando na atmosfera um aroma cítrico, sabia que gomo após gomo ia saciar a tua fome, a tua sede… a tua gula. E quem me saciaria a mim?

À primeira trinca… no primeiro dos meus gomos, gritei, e não de dor como julgara desde que a prata penetrou a minha alaranjada casca… mas sim de prazer!

Como pode algo que deveria causar dor me levar à loucura do desejo? Deixei-me simplesmente ir, gomo após gomo, desejando que nenhum deles fosse o ultimo, e pudesse imortalizar o momento…

 

Foto de Nadi Lindsay no Pexels

Desvanecendo-se

Outubro 19, 2021

Carlos Palmito

desvanecendose.jpg

 

É final de tarde, uma vez mais cais na rotina do teu dia a dia, sabes que tens que passar pela máquina que roboticamente te agradece, observando fixamente a tua retina e guardando toda a informação numa base de dados algures na névoa binária. Sentes um gélido calafrio percorrer o teu corpo e os pelos eriçarem-se. Na mente vem a ideia, nunca o consegues evitar “ladra de almas”.

Passas pelo segurança, e afavelmente desejas um até amanhã, com um sorriso nos lábios, não um até já, e jamais um simples boa noite, mas apenas as descomplicadas palavras de até amanhã atravessam os sorridentes lábios meio escondidos pela barba.

Já no exterior retiras a carteira e olhas… “ainda dá para uma cerveja, talvez duas, será que me apetece mais?” Optas pelo primeiro e partes em direção à esplanada.

Com um simples aceno de cabeça cumprimentas quem te não conhece, pequenos gestos que partem quase que impercetíveis a ti mesmo. Cordialidades do ser humano.

Dentro do bar pedes uma cerveja da tua marca preferida, gelada, sorris novamente apenas com os lábios, pagas, pegas nela e diriges-te à mesa onde os amigos estão entre risadas e bafos de tabaco. Sentas-te cumprimentando todos. Escutas com atenção tudo o que falam para conseguires acompanhar a conversa do hoje.

O ultimo gole de cerveja é tragado, pedes uma nova, a conversa é desinteressante, os risos são muitos “que merda faço eu aqui?” e entras na conversa, talvez para não pareceres rude perante a sociedade em que resolveste entrar. Após a finalização da ultima cerveja, sorris de novo com os lábios (se te vissem os olhos) e partes para o exterior, não neva, mas poderia.

De novo no exterior um pensamento assola-te a mente, um quase tão rotineiro quanto a tua rotina, e nessa rotina espiritual tens uma discussão contigo próprio. “Não aprendeste nada no bar.” “Que merda, se eu quisesse aprender ia para uma biblioteca, não para um bar!”, e desvaneces-te na obscuridade da noite.

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